O MUNDO PAROU E NÓS TEMOS QUE PARAR PARA REFLETIR

Falta de tempo não é  mais desculpa.

Por conta da pandemia da Covid-19 o mundo parou, sem escapismos estamos todos juntos enfrentando uma situação que atinge sem distinção de etnia, classe ou gênero e diz respeito ao nosso bem maior que é a saúde, o que nos coloca diante do limite da vida com a consciência de nossa finitude nos fazendo encarar nosso descontrole e a incerteza em relação ao futuro. Em meio a insegurança e muita angústia, nos sentimos fragilizados e desesperados à procura de uma luz no fim do túnel.

Estamos em uma guerra onde o mundo está do mesmo lado contra um inimigo invisível e desconhecido. Nossa bandeira universal representa a união e a solidariedade. Nossa força é a fé. A vulnerabilidade na linha de defesa desta batalha se encontra na desigualdade social. Nossa arma mais potente é o conhecimento que através da ciência se encarrega da arma letal que aquietará nossa insegurança. Nosso senso de responsabilidade, cooperação e empatia estão sendo cobrados e mais do que nunca, cada um tem que ser “um por todos”.

Inevitavelmente o medo nos assola, pois lidamos com pensamentos de possíveis perdas (de pessoas, rotinas, emprego, finanças, etc). Nosso nível de ansiedade aumenta afetando nossa saúde mental. Sentimentos de ansiedade e medo reativos é positivo, pois nos prepara para reações de sobrevivência, mas quando em demasia o desespero se instala e tudo fica mais complicado.

Não é fácil, mas em momento de tensão é preciso cultivar a calma para que o pânico não nos desestabilize prejudicando nossas ações de defesa inclusive as do nosso organismo que precisa desesperadamente delas. Temos que manter nossa energia e fazer a nossa parte, aguardar diante do relógio da vida, ávidos por suas batidas tentando ajustar o compasso da nossa respiração para encontrar tranquilidade. Cada um tem que encontrar seu próprio  jeito  de se acalmar.

Em meio a este turbilhão de mudanças e incertezas, muitas coisas podem ser tornar um gatilho para a ansiedade, depressão e outros problemas. Muitos podem se ver em meio a uma taquicardia e intranquilidade, ficar com o humor deprimido, ter dificuldades no sono e ainda  lidar com sensações físicas e emocionais, em alguns casos, nunca antes experimentadas e até bem desconfortáveis.

Não somos iguais, reagimos e somos afetados de forma diferente. Em meio a nossa subjetividade, as pessoas que possuem mais habilidade em lidar com situações de estresse devem gerenciar suas relações disseminando tranquilidade e ser o ponto de equilíbrio das emoções afloradas ao redor. Não devemos de forma alguma julgar quem entra em pânico ou tem reações exageradas, pois cada um se vê diante de suas defesas emocionais que às vezes não são suficientes para manter um equilíbrio razoável, o que traz muito sofrimento.

Os meios de comunicação com seu bombardeio de notícias e recomendações nos deixam atordoados e temerosos, as redes sociais disparam textos, muitos inverídicos, provocando ainda mais incertezas nos deixando atordoados e distraídos. É preciso filtrar as informações, verificar fontes confiáveis, se afastar de grupos com mensagens sensacionalistas que vão afetar nosso equilíbrio tão necessário.

Por outro lado, se para muitos, estar bombardeados de noticias ruins e alarmantes pode levar ao desespero, para outros o fato de ver os acontecimentos e se sentirem distanciados gera um sentimento de alívio que pode soar até como falta de empatia, mas se trata de uma resposta de defesa do instinto de sobrevivência, e nesta linha estaremos diante de situações exageradas como estoque absurdo de alimentos e de itens que sugerem segurança, reações ríspidas e até agressivas contra aqueles que se tornam ameaçadores por, de alguma forma, serem relacionados à ameaça que paira sobre todos nós. Em meio as distrações, desespero e ignorância de alguns, outros sem um mínimo de empatia ou escrúpulo vão de alguma forma tentar tirar proveito da situação, portanto estar alerta é fundamental.

A rotina muda repentinamente e pede adaptação e isolamento, o que deve ser apenas nos aspecto físico, não emocional, e nisso a tecnologia está à nosso favor, pois pode nos manter conectados. Estar longe dos olhos e do contato físico não significa estar longe do coração.

É importante manter contato com amigos e familiares para que cada um possa dividir suas experiências ou para que simplesmente não se sintam sozinhos. Em outro ângulo, ao mesmo tempo em que se torna uma oportunidade de unir muitas famílias, em outras pode também gerar uma crise em meio ao tédio e ânimos exaltados, pois a convivência mais próxima também pode aproximar os problemas que estavam sendo deixados de lado, o que não deixa de ser uma oportunidade de reavaliação e diálogo, afinal, é uma a chance de transformar o ambiente em um lugar mais tranquilo e afetivo ao invés de colaborar para que se torne hostil.

Seremos testados em nossas emoções e mais do que nunca teremos que contar com nosso suporte interior.

Não podemos gastar nossas energias nos preparando para o pior, ao invés de relutar vamos aceitar os fatos e nos preparar para a volta ao lar, para o distanciamento da rotina, para refletir e redescobrir tantas coisas que ficaram pelo caminho.  Vamos nos preparar para ter tempo, mesmo que seja para fazer nada, apenas descansar e curtir o ócio.

Temos também a oportunidade de  olhar para dentro de nós mesmos, afinal, tudo colabora para este grande encontro. Podemos aproveitar  para arrumar as gavetas dos sentimentos, reavaliando questões que ficaram esquecidas ou camufladas na correria dos dias, cultivar o jardim da alma e até mesmo encarar o espelho em autoquestionamento.

Estamos passando por momentos de insegurança, é como se tivéssemos que atravessar uma ponte sobre um abismo, isto assusta, e até conseguirmos chegar ao outro lado enfrentaremos ventos de incertezas no vai e vem do medo que pode nos fazer crer que tudo vai desabar. O mundo está nos enviando uma dura lição, nossa missão é aprender e fazer o melhor que pudermos.

 

Muito do que aprenderemos neste momento se tornarão valiosas lições para levarmos pela vida afora num caminho iluminado com novas possibilidades, lembrando que o maior período de criatividade na história ocorreu após a peste negra em meados do século XIV, uma catástrofe que afetou massivamente o continente europeu e da qual resultou o renascimento, o maior período de criação de toda história e que nos influencia até hoje nas artes, cultura e ciência.

Tudo passa, mas enquanto passa, temos que aguentar firmes. Não vamos alimentar o pensamento de que pode acontecer algo muito terrível, mas vamos nos atentar ao que está sendo feito e o que nós podemos fazer para colaborar nesta luta coletiva. Renasceremos dos escombros da insegurança e do medo com um novo olhar sobre nós  mesmos e o mundo. Que a reflexão e a criatividade nos guiem fazendo com estes momentos não passem em vão. Que nossa fé e esperança nos levem para ao anseio da sobrevivência e à um olhar mais atento a nós mesmos, ao outro e ao mundo.

AUTORIA: SILVANA LANCE ANAYA - Psicanalista e Psicoterapeuta Psicodramatista, Pós-graduada em Teoria Psicanalítica, Pós-graduada em Psicologia, Nutrição e Transtornos Alimentares -MBA em Coaching - Bacharel em Administração de Empresas - Jornalista (Mtb 75200/SP)

Direitos autorais: permitida a reprodução do texto ou parte dele desde que citada a autoria.

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