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AS ARMADILHAS DA CULPA

A culpa é um sentimento restrito aos seres humanos onde as regras sociais estão diretamente ligadas. São leis gravadas em nosso subconsciente derivadas de valores familiares e sociais de acordo com a cultura e o meio em que vivemos, gerando, assim, uma censura interna que quando rígida demais se torna a responsável por grandes sofrimentos psicológicos, alimentando uma destrutividade que é tão humana quanto o sentimento de autoconservação.

 

Portanto, a culpa não é inata, são vozes recriminatórias que ainda residem dentro de nós (pais, mães, professores ou outras pessoas) e que até mesmo por coisas banais podem gerar conflitos internos, originando culpas que junto com o medo e a vergonha funcionam muito bem para a sociedade como determinantes do “bom comportamento”.

 

Temos medo de errar e quando nos conscientizamos de um erro, a tortura está em saber que não podemos voltar atrás, daí surgem sentimentos como remorso e impotência que às vezes se tornam devastadores, construindo um inimigo dentro de nós. Mas estes sentimentos, muitas vezes, não decorrem do erro em si e sim da raiva por termos errado, pela incapacidade de aceitar o erro. E por não alcançarmos este perfeccionismo imposto por nós mesmos, nos penitenciamos com a culpa na crença de que a cada erro deve corresponder necessariamente uma punição, permanecendo até mesmo à espera de algum tipo de castigo divino, atolados na ansiedade e tristeza.

 

Para aplacar essas culpas, antigamente as pessoas iam à igreja em busca de penitência, hoje, ainda que se vá à igreja, a sociedade responsabiliza cada um por seus próprios atos, mas esta mesma sociedade também é culpada por muitos sentimentos de culpas, pois a mídia escancara exemplos de pessoas sempre bem sucedidas, magras, bonitas e felizes num parâmetro não alcançável pela maioria que nesta comparação injusta sentem-se torturados pelo fracasso, não conseguindo enxergar seus próprios méritos, cooperando assim para seus próprios erros na tentativa de serem o que esperam delas e não o que realmente são, sentindo-se culpadas por não corresponderem a este ideal de perfeição.

É preciso redefinir padrões mentais para não nos torturarmos em situações desmerecedoras de tanta recriminação e, se a sociedade cria esta culpa neurótica pelo que não podemos ser ou realizar, então, os sentimentos pessoais de culpa são quimeras a serem revistas.

 

Neste jogo da culpa, não raro, quando não culpamos a nós mesmos, temos a mania de culpar os outros numa tentativa de alívio próprio, outros parecem se culpar por tudo de ruim que acontece por aí, dando até a impressão de que existe um certo prazer mórbido neste sentimento, pois se acham merecedores de tudo o que de ruim lhes acontece, culpando-se também pelos erros e tropeços alheios, machucando-se nesta aceitação de culpas e mais culpas, aumentando ainda mais o desconforto interior na medida em que esta vai sendo cultivada.

 

Claro que não importando regras ou culturas, algumas coisas são realmente erradas, como tirar a vida de alguém, roubar, enfim, fazer mal ao próximo, portanto, a culpa também funciona como um dispositivo de autocorreção para reconhecimento de nossos erros e a gravidade destes, ou então, quando uma ação ou caminho precisa ser repensado. Portanto, ela é também um sentimento importante, pois quando ela não existe estamos diante das psicopatias.

É normal que sintamos uma culpa aqui e outra ali por algo que fizemos ou dissemos, gerando um mal estar passageiro, mas prosseguimos nos responsabilizando pelos erros e aprendendo nossas lições. Só temos que aprender a lidar com esta culpa e avaliar se a sua existência condiz com a realidade. Talvez isto não seja o mais importante, mas sim a determinação psíquica e sua consequência em nosso comportamento, porque só sentir culpas e mais culpas pode nos remeter a um círculo vicioso de aflições repetindo padrões de autopunição que se tornam doentios nos levando à depressão, angústia, auto-recriminação e repressão causando desequilíbrios emocionais que podem retornar como um sintoma psíquico e então, na necessidade da diminuição desta culpa, advém diversos transtornos, como pânico, hipocondria, TOC (transtorno obsessivo compulsivo), transtornos alimentares, doenças, entre outras, tornando-se assim um sentimento inútil, onde não há compreensão e aprendizagem.

 

Esta culpa patológica faz com que a pessoa não consiga sentir prazer no presente, ficando introspectiva, triste e isolada, refletindo de forma negativa em todo tipo de relacionamento. Diante dos prejuízos, torna-se, então necessário deixar todo o preconceito de lado e procurar uma intervenção profissional para, assim, desemaranhar estes nós presos ao passado e se libertar dos bloqueios, romper um jugo inconsciente de uma história mal resolvida que impondo uma necessidade de punição, nos mantém escravos no império da culpa.

 

É preciso encontrar um caminho viável para trazê-la à tona e enfrentá-la para assim nos libertarmos dessas amarras invisíveis.

 

Em nossa fantasia, num conceito alienado de que podemos viver sem nunca errar, criamos uma expectativa perfeccionista da vida, mas todos os dias nos deparamos com escolhas e, frequentemente, com acontecimentos que estão além de nosso controle! Em vários pontos deste caminho vamos nos decepcionar conosco mesmos, e isto será menos doloroso se deixarmos de crer nesta possibilidade de perfeição e olharmos as situações de um ângulo diferente, de uma visão mais compreensiva, pois erros são frutos de experiências mal sucedidas que não foram vistas como aprendizagem.

 

Cometemos erros até com a melhor das intenções! Por quê? Porque somos seres humanos dotados de falhas e limitações. Propensos a erros sim, mas dotados também de uma incrível capacidade de aprender nesta escola da vida, para assim, mais amadurecidos, desenvolvermos uma autoconsciência, equilibrando sentimentos e estabelecendo limites racionais sem que façamos a nós mesmos exigências impossíveis e perfeccionistas demais. Sem ficar nos culpando por não conseguirmos ser tudo, possuir tudo, desfrutar de tudo!

 

Não sejamos severos juízes de nós mesmos. Temos que aprender a aceitar nossas imperfeições e a nos perdoar para assim também agir com as pessoas que nos cercam.

 

A vida continua apesar dos erros, por isso não podemos passar por ela nos remoendo de culpas, transformando nossa vida num calvário de dores. Que nosso grito de consciência não se transforme em um grito constante de arrependimento, sofrimento e amargura, mas sim num grito de liberdade que se transforma em uma espécie de mola propulsora a nos remeter continuamente a novas tentativas de acertos.

AUTORIA: SILVANA LANCE ANAYA - Psicanalista (CNP 5706025.89/RJ)  e Psicoterapeuta Psicodramatista, Pós-graduada em Teoria Psicanalítica, Pós-graduada em Psicologia, Nutrição e Transtornos Alimentares - MBA em Coaching - Bacharel em Administração de Empresas - Jornalista (Mtb 75200/SP)

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