DOS CACOS EMOCIONAIS AO MOSAICO DA VIDA

 

Na centenária arte Japonesa Kintsugi quando um vaso se quebra ele não é jogado fora, numa reconstrução onde se utiliza resina de laca polvilhada ou misturada com ouro em pó nas junções de seus pedaços ele se transforma em uma nova e mais preciosa arte com suas “cicatrizes” expostas, assim, o mesmo vaso que muitos jogariam fora por só enxergar nele a inutilidade conta sua história dignamente e continua igualmente belo numa nova perspectiva.

 

 

Criatividade e regeneração

A noção de beleza não fica ligada a perfeição, mas sim à criatividade e poder de transformação enaltecendo uma imperfeição assimétrica e admirável justamente por trazer consigo cicatrizes singulares, transformadas em um magnífico mosaico.

 

 

"O mundo quebra a todos"

Ernest Hemingway disse que “o mundo quebra a todos e, mais tarde, muitos são mais fortes nesses pontos quebrados”. Em nossa jornada pessoal vamos colecionando trincas emocionais e em algum momento algo pode nos afetar profundamente a ponto de nos partir em pedaços, mas isto de forma alguma significa o fim e sim um renascimento que nos trará a consciência de que carregamos o poder de nos quebrar e ainda assim conservar a beleza ímpar da vida, que mesmo não estando intacta, demonstra numa outra perspectiva que a imensa dor que às vezes a vida nos submete se transforma em uma valiosa seiva capaz de unir nossos “cacos” regenerando nossa alma nos trazendo de volta a vida em um novo patamar emocional com ranhuras visíveis e desenhadas pela existência onde cada fragmento conta uma história e revela nossa vitalidade.

 

 

Poder de regeneração

Nesta regeneração, o sentido da vida sofre mudanças e, como o vaso reconstruído, não teremos mais um valor intacto que exibe uma beleza massificada, vazia e sem história, mas no significado pessoal cada junção terá um valor precioso que nos leva à uma nova perspectiva da vida, não mais ilesa, mas com experiências que contam nossa história e nos transformam em recipientes de um saber de vida genuíno, não apenas teórico ou ilusório.

 

 

Elos emocionais fragilizados

A incapacidade aceitar estas estrias emocionais ou então enxergá-las apenas como imperfeições e até motivo de humilhação e vergonha contribuem para a fragilização destes elos que debilitados podem se descolar trazendo à tona a dor que as provocou, colocando-nos em um ciclo de repetição e sofrimento sem aprendizagens.

 

 

Cicatrizes são evidencias de nossa história única

Nossas batalhas são testes de resiliência que deixam cicatrizes e nos tiram do perfeccionismo a que somos incentivados a buscar, não somos iguais e estes sulcos emocionais cravados na alma não nos transformam em objetos danificados e muito menos devem ser vistos como castigo ou motivo de exclusão, mas como evidências de nossa história particular e de nossas admiráveis diferenças. Não fomos criados para sermos vasos intactos, mas vasos que se quebram e se reconstroem em peças únicas e que mesmo faltando pedaços não demonstram imperfeição, mas uma incrível capacidade de criatividade e regeneração.

 

 

Sempre podemos nos reconstruir

Não importa quantas vezes a vida nos quebra ou em quantos pedaços vamos nos partir, o mais importante é a determinação em dar o primeiro passo para reconstrução que nos conduzirá de volta à vida, não mais da forma como a conhecemos, até porque não seremos os mesmos, pois experiências trazem novos significados e mudam percepções.

Não é uma tarefa simples transformar nossos cacos emocionais em cicatrizes de força e aprendizagem e neste processo poderemos precisar de ajuda, o que não é uma demonstração de fraqueza, mas sim de inteligência e coragem ao enfrentar um desafio de vida que também nos conduz ao autoconhecimento, autoaceitação, desenvolvimento do amor próprio e a ampliação da visão de si mesmo e do mundo.

 

 

Somos nossas cicatrizes

Nesta restauração nossos cacos emocionais se tornam um extraordinário mosaico que conta nossa admirável história de superação, solidez e resiliência expondo dignamente a nossa marca pessoal em uma subjetividade que não nos exclui, mas nos inclui no mais alto patamar da vida e da evolução.

AUTORIA: SILVANA LANCE ANAYA - Psicanalista e Psicoterapeuta Psicodramatista, Pós-graduada em Teoria Psicanalítica, Pós-graduada em Psicologia, Nutrição e Transtornos Alimentares -MBA em Coaching - Bacharel em Administração de Empresas - Jornalista (Mtb 75200/SP)

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